Postagens

Mostrando postagens de 2026

Nous nous appartenons

Nous. Nós em francês, que se pronuncia "nu"...Três letras despidas, uma sílaba sem armadura. Bagunça boa de universos paralelos que se escondem por detrás dos símbolos.  Nous. Nus de certezas. Nus de papéis impostos. Nus do que pesa e aperta. Nós. Plural de almas em travessia. Emaranhado de fios e cordas invisíveis que nos enlaçam sem pedir licença. Nós que apertam. Nós que sustentam. Nós que sufocam. Nós que salvam. Passei tempo demais tentando desatar tudo sozinha, achando que liberdade era ausência de laços, quando, na verdade, ela nasce da escolha consciente do que fica e do que se solta. Desatar nós não é romper com o mundo. É parar de lutar contra a própria respiração. É permitir que o fio volte a correr, sem estrangular o pulso, sem prender o peito. Hoje, escolho criar laços que não me diminuem. Laços que não exigem silêncio em troca de pertencimento. Laços que me deixam nua — nu — mas inteira. Porque nous, quando verdadeiro, não aprisiona. Entr...

Lealdade atávica

Por muito tempo eu confundi amor com permanência na dor. Acreditei, sem saber, que honrar minhas raízes significava carregar seus pesos. Que seguir adiante era andar com medo. Que ser feliz demais era uma forma de desrespeito. Eu não disse isso em voz alta. Eu vivi assim. Havia em mim uma fidelidade silenciosa às histórias que vieram antes: às mulheres que sobreviveram sem escolher, aos afetos interrompidos, à escassez emocional disfarçada de força, à abundância que nunca chegava para não humilhar quem aprendeu a viver com pouco. Eu era leal. Profundamente leal. E pagava por isso com limites que não eram meus. Hoje eu reconheço: muitas das minhas pausas não eram prudência, eram medo de ultrapassar. Muitos dos meus silêncios não eram maturidade, eram pactos inconscientes. Muitos dos meus atrasos não eram falta de tempo, eram lealdades herdadas. Eu tentava salvar o passado repetindo-o. E isso não salva ninguém. Há um momento — quase imperceptível — em que a alma ca...

Vai chover...

Eu tenho habilidades para fazer histórias tristes. Talvez, tal qual a natureza, eu precise flertar com a possibilidade viceral de viver a destruição. Há algo de profundamente orgânico nisso, como se uma programação biológica antiga me empurrasse, vez ou outra, a morrer para então renascer. E a morrer de novo. Muitas vezes. Nada evolui sem ruptura. Nada se transforma sem colapso. A vida avança porque algo, em algum momento, cede. Nada na natureza permanece intacto o tempo todo. Há quedas, rachaduras, secas, invernos horrendos e tempestades repentinas. E depois, quase sempre, um silêncio fértil onde algo novo começa a se organizar. Ontem, ao pé do ouvido, o menino Charlie me disse uma frase, dessas que parecem sem efeito mas carregam um mundo inteiro dentro:  “ Viver para ser melhor também é um jeito de levar a vida. ” Viver para ser melhor não é viver para ser perfeita, nem para ser feliz o tempo todo. É aceitar o caos. É sustentar a pergunta. É permanecer em movimento mesmo sem ...