Vai chover...

Eu tenho habilidades para fazer histórias tristes. Talvez, tal qual a natureza, eu precise flertar com a possibilidade viceral de viver a destruição. Há algo de profundamente orgânico nisso, como se uma programação biológica antiga me empurrasse, vez ou outra, a morrer para então renascer. E a morrer de novo. Muitas vezes.

Nada evolui sem ruptura.
Nada se transforma sem colapso.
A vida avança porque algo, em algum momento, cede.

Nada na natureza permanece intacto o tempo todo.
Há quedas, rachaduras, secas, invernos horrendos e tempestades repentinas.
E depois, quase sempre, um silêncio fértil onde algo novo começa a se organizar.

Ontem, ao pé do ouvido, o menino Charlie me disse uma frase, dessas que parecem sem efeito mas carregam um mundo inteiro dentro: Viver para ser melhor também é um jeito de levar a vida.

Viver para ser melhor não é viver para ser perfeita, nem para ser feliz o tempo todo. É aceitar o caos. É sustentar a pergunta. É permanecer em movimento mesmo sem garantias.

Talvez seja isso que eu esteja aprendendo, entre uma tempestade e outra:
que não se trata de evitar o escuro, nem de evitar a dor,
mas de aceitar, aceitar e suportar que crescer também exige atravessar dias nublados,
sentar no chão molhado da própria história
e confiar que a água, mesmo quando cai pesada, vem para mover algo.

Vai chover. E não porque algo deu errado, mas porque a vida é cíclica, impermanente, indomável.
A chuva não pede licença. Ela acontece. E ao cair, transforma.

A mäe natureza não chama isso de tragédia. O nome disse é ciclo.

Vai chover. E eu não sei quando.

Mas eu sei de uma coisa: a terra sabe o que fazer com a água.

E talvez eu também saiba.
Talvez eu esteja aprendendo a confiar que a tristeza não é um erro, mas uma estação. Que ela não é o oposto da vida, é um dos seus modos. E que “ser melhor”, como o menino Charlie disse, pode ser apenas isto: atravessar a chuva sem fingir que ela não existe, e ainda assim manter, em algum lugar do peito, a capacidade de recomeçar.

Se chover, eu vou escutar.
Se chover, eu vou ficar.
Se chover, eu vou existir.

E isso, por hoje, já é uma forma de vitória.

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