Hemorragia
eu te dei armas invisíveis. na rídicula esperança que jamais elas seriam usadas contra mim. posso dizer que foi o erro de uma amadora. mas não é o erro que me surpreende é a minha mudança de comportamento. quando foi que eu me tornei essa frágil criatura que baixa a guarda no primeiro minuto? quando foi que a construção de mundo paralelo tornou minha realidade menos dolorida? que minuto foi esse, que cheia de desatenção e despreparo eu não vi essa coisa chegar?
você apareceu no meio de um sangrento combate, entre mortes e feridas, eu ainda estava de pé, não sem muitas feridas, porém armada e protegida. armada de bom senso, de maturidade, de convicções e ideais, ferramentas construídas arduamente ao longo dos últimos anos. protegida pela certitude que estava a tomar as decisões certas, a criar as estratégias necessárias pra sair o menos ferida dessa batalha. eu estava com coletes e camuflagens.
como dois animais feridos que se cruzam no meio de uma densa floresta, eu rosnei, mostrei os dentes e tentei te manter longe, para o bem de todos, por respeito a urgência de coisas não vividas, por instintivamente sentir que eu poderia perder o controle...
mas você ficou, primeiro ali olhando de longe, sentindo a temperatura das minhas feridas e logo depois muito lentamente foi se aproximando, primeiro me olhando, depois me cheirando, em seguida lambendo minhas feridas, tentando me colocar de pé, buscando meu sorriso frouxo e se certificando que meu coração ainda pulsava e com os estímulos certos, eu permiti que você sobrasse vida em minhas veias...minhas artérias estavam novamente oxigenadas, meu cérebro estava novamente operacional. num curto espaço de tempo eu fui capaz de criar estratégias e micro movimentos, alimenta pelo universo paralelo, para caçar novamente. caçar contigo, criar abrigo, criar um ninho e uma vida...talvez várias.
mais baixar a guarda é perigoso para uma loba selvagem. principalmente ferida. principalmente alimentada de alegria e esperança. principalmente quando tudo é tão efêmero. principalmente quando se precisa tanto do outro que...
eu abri a porta, abri o peito, abri o sorriso, abri o campo infindável da imaginação, abri as pernas, abri o jogo, abri minha casa, abri a boca, abri os olhos...e nesse despertar intenso, quando eu estava de joelhos, pedindo mais vida, mais impulso, mais presença e paciência, você tirou o corpo.
levando na sua boa um pedaço de mim. o que antes era um arranhado em arames farpados, agora é uma hemorragia grave.
não escorre gozo, sorriso, ar ou esperança. agora sangra.
sangra salgado no rosto. e como um animal, que sente dor mais não sabe o que fazer com isso, eu só desejo que o sal desse sangue que escorre peito abaixo tenha grandes propriedades coagulantes, para estancar a dor que percorre meus ossos.
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